TDAH- O desafio invisível que impacta vidas e relacionamentos

Por: Leonardo Adachi
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TDAH- O desafio invisível que impacta vidas e relacionamentos
TDAH: O DESAFIO INVISÍVEL QUE IMPACTA VIDAS E RELACIONAMENTOS
Neuropsicólogo Leonardo Adachi Mascarenhas (CRP/03-9641)
INTRODUÇÃO
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição do
neurodesenvolvimento que, embora amplamente estudada, ainda é alvo de incompreensão e
estigmatização. Caracterizado por sintomas persistentes de desatenção, impulsividade e
hiperatividade, o TDAH afeta aproximadamente 5% das crianças e pode perdurar na vida adulta
em até 60% dos casos (American Psychiatric Association, 2014). Para quem vive com o
transtorno, as dificuldades vão além do comportamento inquieto ou da distração momentânea,
trata-se de uma luta constante para organizar pensamentos, concluir tarefas cotidianas e manter
relacionamentos. Por outro lado, pais, familiares e professores também enfrentam o impacto
emocional e funcional de conviver com alguém cujas ações muitas vezes fogem ao controle. Este
artigo propõe explorar os impactos vividos por quem tem o diagnóstico e daqueles que convivem
com os portadores e destacar a importância da intervenção adequada.
OS SINTOMAS
O TDAH manifesta-se por um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade
que interfere no funcionamento ou desenvolvimento do indivíduo. Os sintomas incluem dois tipos:
● Desatenção: dificuldade em manter o foco em tarefas, cometer erros por descuido,
parecer não escutar quando falado diretamente, não seguir instruções, dificuldade em
organizar tarefas, evitar ou relutar em se envolver em tarefas que exijam esforço mental
sustentado, perder objetos necessários para tarefas e atividades, ser facilmente distraído
por estímulos externos e esquecer atividades diárias.
● Hiperatividade e impulsividade: inquietação, dificuldade em permanecer sentado, correr
ou escalar em situações inadequadas, dificuldade em brincar ou se envolver em atividades
de lazer calmamente, estar frequentemente “a mil”, falar excessivamente, responder
precipitadamente antes de as perguntas serem concluídas, dificuldade em esperar a sua
vez e interromper ou se intrometer nas conversas ou jogos dos outros.
● Tipo Combinado: quando a pessoa apresenta sintomas característicos de desatenção e
da impulsividade.
UM OLHAR NEUROPSICOLÓGICO
Do ponto de vista neuropsicológico, o TDAH está associado a disfunções nas funções executivas,
como controle inibitório, memória de trabalho e planejamento. Modelos teóricos, como o proposto
por Barkley, sugerem que déficits na autorregulação comportamental são centrais no TDAH,
afetando a capacidade do indivíduo de controlar ações e emoções de forma adequada o que irão
promover os sintomas mais comuns, conforme descritos a seguir.
Além disso, evidências neurofuncionais e de neuroimagem apontam para alterações significativas
no funcionamento do córtex pré-frontal, especialmente nas regiões dorsolateral e orbitofrontal,
áreas diretamente envolvidas no controle executivo, tomada de decisão e regulação emocional.
Estudos demonstram que indivíduos com este diagnóstico frequentemente apresentam redução
do volume cortical e menor ativação pré-frontal durante tarefas que exigem atenção sustentada e
inibição de respostas. Tais achados reforçam a hipótese de que o TDAH é um transtorno do
desenvolvimento cerebral, com base neurobiológica sólida, cujos sintomas comportamentais são
manifestações diretas de um sistema executivo comprometido.
AS DORES DE QUEM TEM O DIAGNÓSTICO
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição neuropsiquiátrica
crônica que afeta significativamente a vida dos indivíduos causando dificuldades persistentes em
manter a atenção, controlar os impulsos e regular comportamentos, o que pode levar a desafios
acadêmicos, profissionais e sociais. Estudos indicam que esses indivíduos podem apresentar
prejuízos no desempenho escolar e nas relações interpessoais, afetando sua autoestima e
qualidade de vida.
As dificuldades de atenção sustentada, a impulsividade e a desorganização, características
centrais do TDAH, geram um ciclo persistente de frustrações. Os portadores frequentemente são
rotulados como “desobedientes”, “preguiçosos” ou “sem limites”, mesmo quando estão tentando
com esforço se ajustar às demandas escolares e sociais. Essa desadaptação recorrente leva ao
sentimento precoce de inadequação e ao desenvolvimento de crenças negativas sobre si mesmas
(APA, 2014; Rohde et al., 2000).
O IMPACTO NAS RELAÇÕES FAMILIARES
Conviver com alguém que tem TDAH também apresenta desafios significativos. Famílias de
crianças podem experimentar sobrecarga emocional, conflitos conjugais e dificuldades na
dinâmica familiar. A presença do transtorno pode afetar a relação entre pais e filhos, irmãos e até
mesmo o relacionamento conjugal, exigindo adaptações constantes. O que se recomendaria o
conhecimentos dos familiares sobre esta condição, os seus impactos no dia a dia e até
acompanhamento terapêutico familiar.
A IMPORTÂNCIA DO TRATAMENTO ADEQUADO
A avaliação neuropsicológica é indispensável nesse processo, pois permite a identificação precisa
das funções cognitivas comprometidas e orienta o planejamento das intervenções
individualizadas. O acesso precoce ao diagnóstico e tratamento adequados pode modificar
substancialmente o curso do TDAH, prevenindo consequências negativas de longo prazo e
promovendo o desenvolvimento de habilidades socioemocionais e acadêmicas.
O tratamento adequado do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é essencial
para a promoção da qualidade de vida e funcionalidade dos indivíduos afetados. A literatura
científica mostra de forma consistente que a ausência de intervenção pode resultar em prejuízos
significativos no desempenho acadêmico, nas relações interpessoais e na saúde mental, como
maior risco para transtornos de humor, uso de substâncias e dificuldades ocupacionais na vida
adulta (Barkley, 2006; Rohde et al., 2000).
Segundo as diretrizes da American Academy of Pediatrics (AAP) e da Associação Brasileira de
Déficit de Atenção (ABDA), o tratamento do TDAH deve ser multimodal, combinando abordagens
farmacológicas e psicossociais. O uso de medicamentos psicoestimulantes, como o metilfenidato
e a lisdexanfetamina, demonstra eficácia clínica significativa na redução dos sintomas centrais do
transtorno, promovendo melhora da atenção, da regulação comportamental e do controle
impulsivo (Faraone et al., 2015; Goodman et al., 2010).
Além da farmacoterapia, a intervenção psicossocial — incluindo a psicoeducação, a terapia
cognitivo-comportamental (TCC), o treinamento de pais e professores, bem como a reabilitação
neuropsicológica — desempenha papel central na construção de estratégias adaptativas e na
mitigação dos prejuízos funcionais (Benczik, 2012; Miranda & Presentación, 2014).
CONCLUSÃO
O TDAH é uma condição que vai além da infância, podendo persistir na vida adulta e impactar
diversos aspectos da vida do indivíduo, seja no seu desempenho acadêmico, na carreira
profissional, nas relações interpessoais, conjugais e familiares. O tratamento adequado, que pode
incluir intervenções farmacológicas, psicoterapia e estratégias educacionais, é fundamental para
melhorar o funcionamento e a qualidade de vida dos afetados. A avaliação neuropsicológica
desempenha um papel crucial na identificação das necessidades específicas de cada indivíduo,
permitindo a elaboração de intervenções personalizadas e consequentemente uma melhor
qualidade de vida.
REFERÊNCIAS:
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos
Mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
DESIDÉRIO, Rosimeire C. S.; MIYAZAKI, Maria Cristina de O. S. Transtorno de Déficit de
Atenção / Hiperatividade (TDAH): orientações para a família. Psicologia Escolar e
Educacional, v. 11, n. 1, p. 115–122, 2007. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/pee/a/G4mGnPctSwHkLZgMn8hZs7b/. Acesso em: 5 jun. 2025.
ROHDE, Luis Augusto; BENCZIK, Érica Bezerra Parente; SCHMITZ, Marcelo. Neuropsicologia
do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade: modelos neuropsicológicos e
resultados de estudos empíricos. Psico-USF, Itatiba, v. 11, n. 1, p. 31–38, 2006. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/pusf/a/db7KhPCDQpp5HWzYLvKP8Qd/. Acesso em: 3 jun. 2025.
