Saúde Mental Masculina e Jogos de Aposta

Saúde Mental Masculina e Jogos de Aposta

O Novembro Azul é historicamente o mês dedicado à conscientização acerca da
saúde masculina, com foco na prevenção e diagnóstico do câncer de próstata. Entretanto,
nos últimos anos, a campanha tem se ampliado na discussão para além do corpo físico,
incluindo o cuidado à saúde mental como um aspecto fundamental na integralidade do
sujeito (Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, s.d.).

Quando pensamos sobre o público que ocupa as cadeiras da clínica de psicologia,
ou de serviços de saúde, a presença masculina ainda é minoria. Não por acaso, existe na
nossa sociedade o que chamamos de imaginário social, isto é, um conjunto de ideias e
expectativas sobre determinado tema. No caso da masculinidade, é associado ao ser
homem a ideia de ser forte, corajoso, resistente e invulnerável. O cuidado é visto
culturalmente como um atributo feminino, e percebido como incompatível com a
masculinidade heteronormativa. No entanto, a rigidez de tais expectativas torna o
caminho do adoecimento mais silencioso e difícil de ser alcançado (Oliveira et
Al., 2007).

Diante disso, é notório o crescente fenômeno entre homens: o envolvimento com
as bets, os sites de apostas esportivas. De acordo com a pesquisa do Instituto DataSenado,
62% dos entrevistados são homens, a maioria entre 16 e 39 anos (DataSenado, 2024).
Para muitos, apostar parece ser um passatempo, uma forma de diversão, um escape da
intensa rotina,ou uma expectativa de ganho financeiro que possibilite uma mudança de
vida. Todavia, existe uma íntima relação entre o comportamento do jogo e a saúde mental
masculina (Moraes & Santos, 2019).

O que significa, afinal, sentir e comportar-se como homem em uma sociedade que
espera e cobra sucesso, desempenho e autocontrole? Para muitos, isso se transcreve em
mostrar força, autossuficiência e a habilidade de “dar conta de tudo”, inclusive do próprio
sofrimento. E como tais questões relacionam-se com as Bets? Simbolicamente elas
suprem as lacunas e faltas presentes justamente pela promessa de controle, vitoria e
competência, mesmo que o jogo não dependa da habilidade do jogador. A aposta se
instaura na necessidade do homem estar no comando, mesmo que a prática alimente um
ciclo de recompensa, negação, impulsividade e frustração (Clímaco, 2004).

Mas o que diferencia um jogador social do jogador patológico? O jogador social
é aquele que aposta ocasionalmente, como forma de lazer e sem comprometimento da
vida social, financeira, familiar e laboral. A aposta não ocupa um lugar de centralidade
na vida do sujeito. Ele consegue parar quando deseja e não utiliza o jogo como forma de
manejar suas emoções (Silva, 2025).

O jogo para o jogador patológico tem o poder de gerar uma tensão importante em
sua vida, principalmente na fase da perda. É uma relação marcada pela dificuldade do
controle dos impulsos. As apostas tornam-se frequentes e intensas, ocupando grande parte
dos pensamentos e comportamentos. Sua autoestima está relacionada com o resultado da
aposta. Não consegue parar mesmo quando deveria, esconde os comportamentos e os
prejuízos e tenta recuperar suas perdas (Oliveira et Al., 2007). O jogo também é uma
forma de lidar com seus sintomas emocionais, mais comumente a ansiedade, estresse,
transtorno depressivo e uso de substâncias (Silva,2025).

O reforço imediato de ganhar, perder e tentar de novo é a lógica viciante dos jogos
de aposta, e alimenta um funcionamento mental e cognitivo que pode agravar os quadros
de adoecimento mental já existentes. Esse ciclo ativa o sistema de recompensa cerebral,
com a liberação da dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer e à
motivação, o que contribui para manter o jogador engajado mesmo diante da gravidade
do cenário (Silva, 2025).

E, mais uma vez, o homem lida com isso de forma silenciosa, engolindo a angústia
e tentando manter a aparência do autocontrole. Sem um espaço para falar sobre os seus
medos, sensações de culpa e/ou fracasso, muitos homens acabam se percebendo presos
em comportamentos que oferecem alívio momentâneo, mas aprofundam e escancaram o
sofrimento (Iaroseski Neto & Kristensen, 2022).

Nesse processo, a psicologia desempenha um papel fundamental. A psicoterapia
oferece um espaço seguro, ético e sem julgamentos, onde o homem pode explorar suas
angústias, compreender seus padrões de comportamento e desenvolver estratégias mais
funcionais para lidar com emoções e demandas do cotidiano. É na clínica que muitos
encontram, talvez pela primeira vez, a liberdade de falar sobre seus medos, inseguranças
e desejo de mudanças (Iaroseski Neto & Kristensen, 2022). Por isso, trazer o tema das
bets para o Novembro Azul é uma forma de ampliar o diálogo sobre o cuidado masculino,
reduzir estigmas e incentivar que os homens ocupem os serviços de saúde, sejam eles
físicos ou emocionais.

Autora: Luiza Santiago Lima – Psicóloga Clinica CRP 03/32237

 

Referências:

Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina. (s.d.). Documento orientador Novembro
Azul para atenção integral à saúde do homem.
Agência Senado (2024). Mais de 22 milhões de pessoas apostaram nas “bets” no último
mês, revela DataSenado. Senado Federal.[
Gomes, R., Nascimento, E. F. D., & Araújo, F. C. D. (2007). Por que os homens buscam
menos os serviços de saúde do que as mulheres? As explicações de homens com baixa
escolaridade e homens com ensino superior. Cadernos de saúde pública, 23(3), 565-574.
Moraes, L. M., & Santos, M. A. (2019). Narrativas de jogadores sobre os impactos do
jogo na saúde mental. Psicologia em Estudo, 24, e40265.
Clímaco, M. I. (2004). O jogo patológico-A adição menos visível. Revista Portuguesa de
Medicina Geral e Familiar, 20(1), 121-34.
Oliveira, M. P. M. T. D., Silveira, D. X. D., & Silva, M. T. A. (2008). Jogo patológico e
suas consequências para a saúde pública. Revista de Saúde Pública, 42, 542-549.
Silva, V. G. A. (2025). CICLO VICIOSO E CONSEQUÊNCIAS DOS JOGOS DE
AZAR. BIUS-Boletim Informativo Unimotrisaúde em Sociogerontologia, 51(45), 1-12.
Iaroseski Neto, G., & Kristensen, C. H. (2022). Quando homens vão à psicoterapia: uma
revisão de contextos e demandas. Revista Brasileira de Psicoterapia.